Olga Cabrera
Centro de Estudos do Caribe
O Centro de Estudos do Caribe no Brasil chega ao V Simpósio
Internacional com importantes tarefas cumpridas. O Centro tem um
prestígio nacional e internacional que fica evidenciado na
incorporação de muitos membros de cada vez mais regiões
do Brasil nos seus simpósios internacionais, permitindo que
sua realização possa acontecer em estados diferentes
do país, assim como, tal como planejamos desde sua fundação,
seu núcleo central possa radicar em outros espaços
acadêmicos. A maioria dos membros do CECAB é composta
por historiadores, antropólogos, educadores, filólogos
e outros, profissionais de diferentes níveis de graduação
acadêmica e instituições (UFF, UFBA, UFM, UnB,
UFG, PUC/São Paulo e outras).
Desde sua fundação no mês de Janeiro de 1999
o CECAB, é o único centro de estudos brasileiro voltado
para os estudos do Caribe em geral e das culturas afro-descendentes
americanas nos seus processos de relações com outras
culturas. Outros núcleos ainda não específicamente
de estudos caribenhos abordam estes, relacionados com outras temáticas.
O CECAB se constituiu em sociedade civil para garantir a publicação
de seu órgão de impressa, a Revista Brasileira do
Caribe e a realização de seus simpósios internacionais.
A iniciativa de criação deste centro foi aprovada
pelo Departamento de História da Faculdade e Ciências
Humanas e Filosofia, da Universidade Federal de Goiás no
dia 26 de fevereiro de 1999.
Na ocasião da criação do CECAB sabíamos
das dificuldades que teríamos que enfrentar, a partir da
preeminência, na Pós Graduação de História
da UFG, dos temas locais. Por isso consideramos a importância
de sua projeção nacional e internacional, aspectos
decisivos na sua permanência. A sociedade civil fundada no
mês de Janeiro de 1999 tem garantido a continuidade da Revista
Brasileira do Caribe, cuja projeção é cada
vez mais internacional, mostrando ao mundo a vocação
caribenha do Brasil.
A criação do CECAB veio a preencher uma lacuna existente
nas Ciências Humanas neste país. Embora haja proximidade
histórico-cultural e geográfica entre o nosso país
e aquela região, percebe-se uma enorme carência de
estudos e especialistas sobre o Caribe. Por outro lado, diante da
situação dos currículos do ensino fundamental
e do segundo e terceiro grau que carecem de tópicos importantes
sobre a história da América e ainda mais sobre o Caribe.
A relevância do CECAB sempre estive relacionada à sua
vocação internacional, fortalecendo academicamente
as instituições que o tem acolhido mediante a viabilização
de espaços de debates, de pesquisa e de projetos conjuntos
com instituições nacionais e estrangeiras. O CECAB
conta com convênios com várias instituições
internacionais como a Universidad Las Palmas de Gran Canária,
a Universidad Complutense de Madrid, Universidad de Puerto Rico,
a Asociacion Mexicana de Estudios del Caribe, Universidad Autônoma
de Madrid, o Observastorio del Caribe Colombiano, com a rede de
universidades colombianas, RUDECOLÔMBIA e o seu Doutorado
em Ciências da Educação com a Caribbean Studies
Association, dentre outras instituições de renome
internacional.
Os Simpósios Internacionais, promovidos pelo CECAB desde
sua criação tem tido o apoio de pesquisadores nacionais
e internacionais como o I Simpósio Internacional do Caribe:
“Entre experiências e sentidos: Caribe, etnia e região”
realizados na cidade de Goiânia, nos dias 2,3 e 4 de agosto
de 2000; o II Simpósio Internacional do Caribe: “Fronteiras,
Migrações e Cultura”, de 9 a 12 de julho de
2002, na histórica Cidade de Goiás, Patrimônio
Cultural da Humanidade, o III Simpósio Internacional do Caribe:
“Culturas Híbridas no Atlântico: Relações
África-Ásia-Brasil-Caribe”, de 20 a 24 de outubro
de 2004 na cidade de Goiânia; o IV Simpósio Internacional
do Caribe: “Migrações e Processos Identitários”,
realizados de 27 a 30 de setembro de 2006 em Caldas Nova e agora
o V Simpósio Internacional, Fronteiras e Culturas em movimento:
África Brasil Caribe que se está realizando na histórica
cidade de Salvador, Bahia. Cidade cuja vocação caribenha
salta à vista.
Todos esses eventos têm sido realizados graças à
parceria com a Universidade Federal de Goiás, a CAPES e outras
instituições como a Universidade de Brasília,
Universidade Estadual de Goiás e outras. Uma das linhas fundamentais
que permitiram o desenvolvimento do CECAB esta baseado na carência
de estudos sobre o Caribe e dos vínculos que unem Brasil
ao Caribe. No entanto, os teóricos caribenhos não
podem deixar de relacionar as culturas e a história caribenha
ao Brasil.
No entanto no Brasil, ainda com os avanços trazidos pelo
CECAB, se percebem carências em relação a estes
estudos O CECAB tem se preocupado por preencher estas lacunas e
vêm aportando seu trabalho continuo para resolver esta situação.
Os obstáculos que se levantam para este campo no Brasil são:
No contexto dos primeiros anos do século XX Brasil amoldou-se
à supremacia americana na região. O Caribe na política
exterior do estado nacional brasileiro foi quase inexistente, apenas
Cuba após a Revolução de 1959. Certo que também
a maior parte dos países caribenhos carecia de estados independentes
e tem sido invisibilizados dentro da estrutura das metrópoles
coloniais.
O segundo obstáculo para o desenvolvimento do Centro está
relacionado à experiência acadêmica brasileira
sobre o Caribe que na sua projeção de estudos latino-americanos
desconhecem a hierarquia nascida da incorporação do
conceito raça e deixam fora as conseqüências do
racismo e pelo tanto de uma parte importante da problemática
do Caribe que também rege para o contexto brasileiro.
Outros obstáculos estão relacionados também
à formação do estado nacional brasileiro. Ainda
contando com a maior população negra americana, as
elites intelectuais brancas brasileiras de Bahia, primeiras estudiosas
destes temas, decidiram-se pela exaltação dos vínculos
dos negros brasileiros com a África, mas, desconheceram os
processos transnacionais que explicam as formações
sociais, políticas, culturais e históricas dos países
envolvidos na denominada diáspora africana.
No Brasil com a Constituição de 1988 ganhou força
a tentativa de substituir o projeto nacional que idealizava uma
nação brasileira homogênea étnica e culturalmente
por uma unidade nacional a partir da diversidade cultural. No entanto
a similaridade desta conquista com outros casos no Caribe apenas
recentemente tem provocado uma aproximação às
associações e intelectuais que tem reconhecido a importância
de relacionar as histórias brasileira e caribenhas. Os estudos
históricos, antropológicos, sociológicos e
literários aludem a estes laços. A realização
desta conferência na Bahia é um reconhecimento também
pelo Brasil destes laços.
Brasil Caribe como foi denominado pelo modernismo é o substantivo
abrangente que explicita estas relações, reconhecidas
por quase todos os autores caribenhos. Para estes o Caribe é,
independente da sua origem “uma categoria sócio histórica
que faz referencia a uma zona cultural caracterizada pelo legado
da escravidão e o sistema de plantações”,
incluindo as ilhas e as partes de terra firme do continente (GIRVAN,
2001:3). A perspectiva de Grande Caribe, incluindo regiões
do continente se mantêm também nas associações
caribenhas colombianas, na Associação Mexicana e na
Venezuelana assim como nos estudos do CECAB.
Os simpósios anteriores ao V tem sido realizados no Estado
de Goiás, em três diferentes cidades: o primeiro e
o terceiro em Goiânia (2000 e 2004), o segundo na Cidade de
Goiás (2002) e o quarto em Caldas Novas (2006). Nesses simpósios
foram estabelecidos debates, intercâmbios e projetos de cooperação
e pesquisa entre o CECAB e outros centros de estudos, bem como faculdades
e universidades nacionais e estrangeiras. A participação
do CECAB na organização do 32 congresso da Caribbean
Studies Association, marcou também um momento importante
na trajetória do Centro não apenas pela movimentação
de muitos estudiosos do Caribe mas pela expressiva presença
das publicações do CECAB e pelo interesse que despertaram.
Os simpósios do CECAB são bienais e congregam pesquisadores
do mundo inteiro e dos mais diversos campos do saber como Antropologia,
Artes, Educação, Economia, Filosofia, Geografia, História,
Lingüística, Sociologia etc. A realização
do V Simpósio em Salvador representa a consolidação
desses vários projetos de cooperação interinstitucional
tanto no Brasil quanto no estrangeiro, bem como das publicações
do CECAB. A programação do V Simpósio Internacional
do CECAB aborda múltiplas temáticas que mostram o
enlace entre o Caribe e o Brasil: O diálogo com a filosofia
caribenha é possível pelas similaridades dos processos
de formação social, histórica e cultural dos
países caribenhos com o Brasil. O Caribe não é
apenas a dimensão geopolítica que o pensamento imperial
tem-lhe atribuído, o Caribe é esse terceiro espaço
que o caribenho Wilson Harris tem definido de maneira brilhante,
dimensão de encontro de culturas. Esse encontro também
foi imposto, desde o barco negreiro, aos diferentes povos africanos
com o intuito de impedir a comunicação entre eles.
No terceiro espaço de que fala Harris o diferente, fragmentado,
invisível, definido freqüentemente a partir de estereótipos,
é o centro do interesse, rompendo nestas visões com
as distorções dos discursos metáforas e configurações
construídas na dominação.
Dar visibilidade às culturas negras nos museus e outros espaços
e incorporar seus estudos aos currículos de educação
em todos os níveis exige o debate acadêmico embasado
nas visões e teorias transnacionais fomentado pelo Centro
desde seu nascimento no ano de 1999.
Os homens e mulheres submetidos à escravidão, o migrante
nu segundo Glissant, tinham um passado uma memória que os
seguiu durante a penosa e longa viagem pelo Atlântico, aferrando-se
mais aos seus mitos, lendas, música, dança e, sobretudo,
à força de suas convicções, tal qual
aparecem recriadas nas representações atuais das culturas
negras.
O Centro de Estudos do Caribe reconhece a importância do apóio
da UFG na sua permanência e história, mas considera
que sua afirmação como centro brasileiro dedicado
aos estudos do Caribe, devia transitar pela cidade de Salvador.
Agradecemos uma vez mais o inestimável patrocínio
da UFG que pode ser evidenciado nos documentos que acompanham as
pastas dos participantes e pelo transporte que permitiu a presença
de muitos dos seus estudantes no V Simpósio. Também
agradecemos à CAPES, o patrocínio que já é
histórico e que garantiu a presença dos cubanos no
V Simpósio Agradecemos a UFBA por ter criado as condições
para a utilização dos seus espaços, pelo seu
apóio e especialmente agradecemos a Joseania Freitas por
ter acompanhado este projeto desde há alguns anos.
Esta convocatória na cidade de Salvador tem como interesse
fundamental cumprir uns dos fundamentais objetivos do CECAB: Que
o seu núcleo nacional transite por diversos estados do Brasil.
No V simpósio com a maturidade alcançada pelo Centro,
pode já ficar seu núcleo central em outro estado brasileiro,
representando a unidade nacional com o apóio dos núcleos
interessados em manter este centro para o Brasil e para o mundo
em Goiás, Brasília, Maranhão, São Paulo,
Rio de Janeiro e outros.
A convocatória ao V simpósio Fronteiras e Culturas
em movimento alude aos inúmeros contatos entre economias,
culturas, nações e povos na atual globalização,
assim como aos deslocamentos das fronteiras culturais e geográficas,
a hierarquização de valores culturais e étnicos,
a dominação imperialista, a exclusão e a marginalização
cultural, social e política que ainda se constituem em aspectos
negativos dessa globalização.
As relações África Brasil Caribe abrangem uma
simultaneidade de tempo e de locais: Nos séculos XV e XVI,
o Atlântico transformou-se em cenário principal dos
contatos desiguais entre povos da África, América
e Europa, provocando o “modo perpétuo” em que
culturas e povos se encontram em constante movimento, quer por sua
dinâmica interna, quer pelos deslocamentos migratórios
e pelo desigual desenvolvimento tecnológico.
As relações atlânticas modificaram os espaços
geopolíticos e culturais da África e da América
por meio da colonização e da diáspora africana.
Nesse contexto, o Brasil e o Caribe se apresentam, ou são
representados, como regiões de profundos interstícios
culturais onde as manifestações culturais de matriz
africana ou ameríndia ficaram ocultas, negadas sob o estigma
do atraso, a barbárie. A África, por sua vez, se apresenta
como uma região ancestral de povos e etnias subalternos do
Novo Mundo, como um local de tradições culturais estáticas
e homogêneas, ou de atraso e subdesenvolvimento, ofuscando
as relações entre suas múltiplas culturas.
As interconexões culturais e políticas entre África,
Brasil e Caribe, portanto, são resultantes de um passado
colonial comum e das relações mantidas entre essas
regiões no atual processo de globalização.
Desse modo, pensar nessas culturas em movimento é reagir
contra as noções estáticas de centro e periferia,
das identidades, de culturas monolíticas e fixas na tradição,
de fronteiras como limites e não como interstícios
abertos à negociação e ao diálogo intercultural,
mas também ao debate e às tensões, bem como
o respeito à diversidade cultural.
Para esse debate, o Centro de Estudos do Caribe no Brasil (CECAB)
realiza o V Simpósio Internacional com o tema “Fronteiras
e Culturas em Movimento: África, Brasil e Caribe”.