Missão da Revista Brasileria do Caribe

A Revista Brasileira do Caribe tem como missão principal focalizar o estudo das culturas afro-americanas na sua relação com outras culturas e com suas matrizes africanas. Esta missão firma-se na compreensão do elo que une o Brasil ao Caribe.

O Caribe não é apenas a dimensão geopolítica que o pensamento imperial tem lhe atribuído. O Caribe fornece um debate intelectual aos estudos afro-americanos, cujo espaço de reflexão sempre tem sido transnacional, bem como aporta uma filosofia alternativa que permite pensar as culturas negras na atualidade e sua importância no processo de formação social, cultural, histórica e também nacional.

O Brasil e o Caribe são representados como regiões de profundos interstícios culturais onde as manifestações de matriz africana e ameríndia ficaram ocultas, negadas, sobre o estigma do atraso e da barbárie. A África, por sua vez, se apresenta como região ancestral de povos e etnias subalternas do Novo Mundo, como um local de tradições culturais estáticas e homogêneas ou de atraso e subdesenvolvimento, escurecendo as relações entre suas múltiplas culturas.

As culturas negras e suas matrizes africanas emergem quando são removidas tanto as configurações intelectuais embasadas na dicotomia modernidade/tradição como as criadas nos rígidos marcos de interpretação nacional.

O Caribe, esse terceiro espaço que o caribenho Wilson Harris tem definido de maneira brilhante: é uma dimensão de encontro de culturas onde o diferente, fragmentado, invisível, pode ser levado à superfície, mediante uma ação conseqüente contra os estereótipos e as distorções dos discursos, das metáforas e das configurações construídas na dominação colonial e na racialização identitária nacional.

O Caribe também é aqui: A “não história” tem imposto uma compreensão do Brasil nos limites diacrônicos nacionais desconhecendo a simultaneidade de tempo e de locais: Nos séculos XV e XVI o Atlântico transformou-se em cenário principal dos contatos desiguais entre povos de África, América e Europa, provocando uma dinâmica interna quer pelos deslocamentos migratórios quer pelo desigual desenvolvimento tecnológico. As interconexões culturais e políticas entre o Caribe, Brasil e África, portanto, são resultantes de um passado colonial comum e das relações mantidas entre essas regiões no atual processo de globalização. Desse modo, estudar o Caribe no Brasil, exige estudar suas interconexões atlânticas, significando reagir contra as noções de centro e periferia, das identidades estáticas, das culturas monolíticas fixas na tradição, das fronteiras como limites e não como interstícios abertos à negociação e ao diálogo intercultural mas, também, ao debate e às tensões bem como o respeito à diversidade cultural. <

As definições externas do Caribe impostas pelo poder colonial têm que ser questionadas desde dentro. Para entender-se a sim mesmo, o Brasil, o segundo país do mundo em população negra, tem que transcender à visão nacionalista da busca da valorização a partir das origens e penetrar nos processos de formação histórica, social, política e cultural acontecidos no Caribe com a migração forçada do “migrante nu”. O que “realmente” aconteceu tanto no Caribe como no Brasil pertence à “não história”, são os “restos” deixados pelos interlocutores silenciados, protagonistas que, arrancados de suas terras africanas e ainda forçados e submetidos à escravidão foram configurando uma outra forma de perceber e interpretar o mundo. Compreender as diversas forças que tem participado na formação do Brasil e do Caribe, significa também estudar na língua imposta a negociação com o outro, além da incorporação de outras fontes como a dança, a música, a oralidade. Por isso, a Revista Brasileira do Caribe se apóia também na mais ampla interdisciplinaridade.